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sexta-feira, fevereiro 3, 2023

Sobre meritocracia e privilégio

O teórico judeu polonês, naturalizado belga, Chaïm Perelman, autor de “Tratado da Argumentação” e sua colega belga Olbrechts-Tyteca descreveram, no final dos anos 1950, o que chamaram de “argumentos quase lógicos”, reconhecidos por eles como um tipo de estratégia argumentativa pela qual se constroem entendimentos que apenas parecem lógicos, mas não o são.

Muito desse tipo de estratégia argumentativa é facilmente encontrada no que intelectuais do mundo todo têm usado para discutir meritocracia e privilégio nos últimos tempos e desde que novos paradigmas do conhecimento, com a pós-modernidade, começaram a desconstruir mitos em torno das diferenças entre sujeitos, enfrentando de modo crítico uma porção de preconceitos bastante enraizados.

Há muita confusão no debate público sobre méritos e privilégios. A primeira delas diz respeito a um falso silogismo, baseado na premissa de que não poderia haver competição entre pessoas que estejam em condições diferentes, que tiveram preparos diferentes ou alguns privilégios, os quais outras não tiveram, porque isso não pareceria, afinal, algo justo. Esta é uma quase verdade, ou um argumento quase lógico. Se fosse mesmo verdade, atletas não poderiam competir em campeonatos mundiais de nenhum jeito, nem poderia haver Olimpíadas nem Copa do Mundo. A menos que se aceitasse que os jogos são injustos e que quem sobe ao pódio e conquista medalhas é por que foi privilegiado e não porque tenha alcançado um mérito para estar lá. Certamente, pouca gente concordaria com isso.

Outra enorme quase verdade é também sustentada por um argumento quase lógico: a sociedade precisaria ser equitativa, conceito defendido por quem entende que embora não existam igualdades em quase nada no mundo, é preciso haver condições equânimes entre pessoas numa situação de concorrência ou competitividade, como no mundo do trabalho, por exemplo. Equidade seria definida como um tipo de justiça, imparcialidade e igualdade de direitos. Só que a realidade não é tão simples como os exemplos que em geral sustentam essa ideia, como quando se diz que é preciso adaptar regras para que injustiças sejam evitadas, como nas cotas raciais. Em geral, se desconsidera, quase sempre, que regras criadas para reduzir injustiças podem também, por sua vez, criar outras injustiças e que nenhum sistema seletivo é plenamente justo, assim como nenhuma sociedade conhecida é capaz de viver sem processos de seleção. Na prática, toda vida em sociedade implica em processos de disputa, o que faz dela, necessariamente meritocrática e faz da meritocracia, por isso mesmo, um princípio social de justiça. Não soubemos criar ainda nada mais democrático no planeta.

Outra razão para isso é também muito óbvia, por mais que pareça desumana: seleções e competitividades existem porque não há como colocar todo mundo onde queiram estar. Como escreveu o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, é impossível num mundo com bilhões de pessoas que todas sejam felizes. Não há lugar. Quer dizer, as sociedades humanas são, por sua própria natureza coletiva, meritocráticas, pois é preciso em quase tudo ser seletivo: não há como colocar as pessoas onde elas simplesmente almejam, nem condicionar a que tenham, todas elas, rigorosamente, as mesmas condições prévias de competitividade entre si nem os mesmos resultados. Não haveria como eliminar a desvantagem de que umas tiveram uma escola e não outra, ou que viveram num país e não noutro, por exemplo, o que pode ser, de alguma perspectiva, realmente um privilégio, tanto no esporte, como no trabalho e na vida, em geral.

Primeiro, é preciso desfazer a confusão das pessoas entre mérito e privilégio para que entendam que nem sempre essas duas coisas se encontram associadas. Mérito é algo justo, por mais injusto que pareça ser em relação a quem não o tenha alcançado. Privilégios são injustos, mas nem sempre também decorrentes de uma deslealdade, como algumas teses parecem, no fundo, defender. E há ainda outra lógica bastante invertida que é a da crença de que o esforço bastaria para se conquistar lugares sociais. Isso nunca foi dito por nenhum sistema meritocrático: todo mundo sabe que por mais que muitos se esforcem, não há infelizmente, qualquer garantia de sucesso ou de conquistas. Pode parecer cruel, mas é um fato. Hoje em dia, muitos estudantes cotistas, por exemplo, que se formam nas universidades já estão percebendo, finalmente, que a simples condição de acesso, por mais avanço que represente em termos de direito e justiça social, nunca foi nem será garantia de ascensão social, ou mesmo de oportunidades.

*A notícia completa está na versão impressa do Caderno 2.

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