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sexta-feira, dezembro 9, 2022

O fim do limite

Jean-Pierre Lebrun, diretor da Associação Freudiana da Bélgica e um dos fundadores da Associação Lacaniana Internacional fala sobre aquela que considera a causa da mutação do vínculo social contemporâneo: o fim da necessidade de aprender a perder, a renunciar, a entrar em conflito com o outro. O fim do limite.

No ponto fulcral de sua obra, ele leciona que o fim da necessidade de perda, de proibição e de limite deslegitima todos que têm a tarefa de prescrever a necessidade da subtração do gozo para poder crescer. Isso deslegitima o pai, que então se pergunta por que deve dizer não. Deslegitima o professor, que se sente mal quando deve avaliar negativamente o trabalho de um aluno. E isso, através do processo da educação, da maneira como os pais lidam com a criança, se sentem incompetentes para poderem intervir.

Hoje, o objeto de consumo que nos é proposto cada vez mais rapidamente quer nos dar a ilusão, nos fazer pensar que justamente não se deve mais consentir nessa perda de limite, de gozo. Pelo contrário, diz que hoje devemos aproveitar o que se apresenta. Portanto, deveríamos banir de nosso trajeto a necessidade da perda. E eis aí algo que faz virar a cabeça de todo o mundo. É algo que nos atormenta profundamente e que me parece ser a mutação do vínculo social que enfrentamos hoje com uma série de consequências.

Se há ruptura quanto à necessidade da perda, então a noção de proibição se revela também completamente caduca. Por que proibir? Para que servem as proibições? Não há mais razão de proibir. Nada de proibição. E é o que constatamos hoje. Jovens menores de idade bebendo vodca com energético é normal em todos os lugares do mundo, mesmo que cause inúmeros danos cognitivos e neurais. Não se deve proibir.

Onde seria mais necessário um trabalho para aprender a renunciar, nem que seja um pouco, a essa realização mortífera, geralmente a criança se vê hoje entregue a si mesma, abandonada. Literalmente abandonada ao seu universo pessoal, onde seu mundo é significado por narrativas dadas pelo Tik Tok ou algum funk bagaceiro do momento, dentre outras salamandras do gênero que diariamente a tornam mais superficial e ignorante de si mesma.

E segue o barco da vida no vasto rio da existência.

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