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sexta-feira, setembro 30, 2022

Obesidade mais do que dobra no Brasil

Obesidade é uma doença crônica. Complexa, multifatorial, uma epidemia global da qual o Brasil não escapa. Na verdade, aqui, essa doença só tem aumentado. Nos últimos 20 anos, a prevalência de obesidade entre a população adulta mais do que dobrou, passando de 12,2% para 26,8% segundo o IBGE. Estima-se que, se a taxa de crescimento continuar a mesma, poderemos chegar a quase o mesmo índice dos Estados Unidos, onde mais de 36% da população vive com sobrepeso ou obesidade.

Se isso já não fosse preocupante, os médicos alertam que o acúmulo de gordura corporal contribui para uma lista enorme de problemas de saúde, como hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, além de artrose, refluxo esofágico e diversos tipos de tumor.

Mas por que, apesar de todas essas evidências, as pessoas, incluindo os profissionais de saúde, têm tanta relutância em considerar a obesidade uma doença e tratá-la como tal?
Para começar, essa é uma definição relativamente nova. Foi só em 2013 que a Associação Médica Americana (AMA) estabeleceu oficialmente o conceito de obesidade como doença crônica. E só em 2015 a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou como meta mundial interromper o aumento das taxas de excesso de peso, com o objetivo de conter o número de mortes por doenças não transmissíveis até 2025 – uma meta que já se sabe não será alcançada. Não por acaso, a epidemia foi apelidada de globesidade.

Durante décadas, os pesquisadores que trabalhavam com esse tema se concentravam na parte comportamental, como se a gordura corporal fosse uma condição individual, decorrente da incapacidade de controlar a balança, fechar a boca e praticar atividade física, em vez de resultado de alterações moleculares e metabólicas do organismo. Muitas culturas viam a obesidade como resultado de defeitos de caráter, não sendo uma coincidência que a gula fosse considerada um dos sete pecados capitais. O excesso de peso era, e ainda é, associado à preguiça, gula, falta de força de vontade e outros estereótipos negativos.

“O controle do peso é um fenômeno complexo que não depende exclusivamente da força de vontade”, contrapõe a endocrinologista Maria Edna de Melo, diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso). A obesidade pode ser medida de acordo com o IMC (Índice de Massa Corporal): o peso da pessoa dividido pela sua altura ao quadrado. Se o resultado for superior a 25, a pessoa está acima do peso. Se passar de 30, é obesa, e se tiver doenças associadas, como diabetes e hipertensão, precisa urgentemente rever seus hábitos e buscar ajuda.

Herdar dos pais genes que favorecem o acúmulo de energia e tornam mais difícil a pessoa emagrecer explica em parte o problema. “A humanidade foi selecionada para armazenar energia e guardá-la para períodos de restrição, quando a alimentação é escassa”, explica a diretora da Abeso. “Só que o mundo mudou e hoje temos abundância de alimentos.

Estamos vulneráveis para adquirir obesidade e acumular gordura ao longo da vida. Nesse caso, pode existir uma predisposição tanto genética quanto biológica.”

Essa questão explica por que a obesidade se tornou uma epidemia mundial que só aumentou nos últimos 50 anos. “Nesse período, as mudanças no sistema alimentar, que estimularam o consumo de produtos prontos para o consumo, processados e ultraprocessados, como refrigerantes, biscoitos, refeições congeladas, embutidos etc., foram acompanhados de mudanças de estilo de vida da população, que passou a ser mais sedentária”, afirma a nutricionista Ana Paula Bortoletto Martins, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde. “Ao mesmo tempo que as grandes indústrias alimentícias começaram a desenvolver tecnologias que melhoraram a produção de alimentos, também se registrou o aumento da composição de gordura saturada na dieta da população.”

A equipe do Nupens, do qual Martins faz parte, foi pioneira em associar as mudanças no processamento industrial de alimentos com a epidemia de obesidade que atinge a maior parte dos países do mundo, até mesmo aqueles de baixa renda. No Brasil, não por coincidência, a população passou a apresentar excesso de peso nas últimas décadas, quando se verificou a troca da alimentação tradicional por um cardápio rico em gorduras saturadas e de alto teor calórico e o marketing dos industrializados tornou-se mais disseminado, inclusive entre as crianças e adolescentes.

As pesquisas mostraram que este não é um problema apenas de quem vive em luta com a balança. Se antes muitas famílias tinham dificuldade de acesso a alimentos prontos ou industrializados, hoje refrigerantes, pacotes de macarrão instantâneo, bolachas recheadas e salgadinhos se tornaram mais baratos e disponíveis do que comida in natura. Em consequência, tanto a fome como a crescente epidemia de obesidade atingem a população mais vulnerável. “Outros países já alcançaram um pico de obesidade chegando até à saturação”, comenta Martins. “No Brasil, os números estão crescendo numa velocidade mais rápida. Isso se estende a todas as classe sociais.”

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